Roberto Blatt

para o blog filmecoss.com

 

Midnight Family (EUA, 2019) é um documentário filmado na cidade do México pelo jovem cineasta norte-americano Luke Lorentzen. Entrei em contato com os produtores dessa obra há meses e finalmente eles cederam uma cópia para exibição com exclusivas finalidades educativas nas escolas onde leciono em Curitiba (as exibições ocorreram em outubro de 2019 para alunos do Colégio Estadual do Paraná). O doc acompanha a rotina de uma família mexicana que praticamente mora e trabalha dentro de uma ambulância na capital, Cidade do México.

 

A cena de abertura já nos insere nessa perspectiva: é quase um POV  – “ponto de vista” – emulado de dentro da ambulância, uma jogada visual clássica de qualquer cena de robôs, por exemplo, em que nos colocamos no seu ângulo de visão.

 

É o prenúncio de uma obra com o vigor de um filme de ação ao mesmo tempo em que constrói dramaticidades trágicas nos mais variados graus, tendo espaço inclusive para brevíssimo alívio cômico no romance juvenil e seus dilemas das redes virtuais. Tudo está sendo comunicado: a câmera na ambulância, e os protagonistas com suas redes e celular na mão. 

 

 

SINOPSE

Usando uma rádio policial para localizar emergências, a família Ochoa é responsável por operar uma ambulância própria de maneira independente, buscando e atendendo feridos na Cidade do México. Enquanto fazem o melhor que podem para que ninguém fique sem cuidados médicos, eles também precisam lutar contra as dificuldades financeiras que mostram-se agravantes.

(fonte da Sinopse: http://www.adorocinema.com/filmes/filme-260828/)

 

TEMAS GERAIS & DEBATES

Os temas gerais do documentário englobam emprego, cidadania, políticas neoliberais e eventualmente educação. Algumas das características que podemos destacar previamente implicam dois tipos de observações: primeiro as informações que o próprio filme fornece sobre o sistema de atendimento das ambulâncias no México, onde uma ambulância privada ao chegar no local de um acidente só pode socorrer a vítima, ou iniciar qualquer atendimento paliativo, depois que se constatou que não há disponibilidade de uma ambulância gratuita/estatal por perto, ou seja, o acidentado pode agonizar até que esse entrave burocrático seja superado.

 

Em segundo lugar podemos apontar a política neoliberal e a cartilha do FMI seguida no país por sucessivos governos privatistas, que implantou uma receita de atuação estatal bastante reduzida: há apenas 45 ambulâncias do Estado para atender uma cidade com mais de 9 milhões de habitantes (mais de 22 milhões se contarmos a região metropolitana).

 

 

Essa espécie de “uberização” do serviço reflete-se numa acirrada disputa de “clientela” e faz, com a saúde das pessoas, uma demonstração empírica do livre-mercado e do darwinismo capitalista. Ressalto que essas são reflexões minhas interpretações, evidentemente, a partir da retórica do filme que, por si mesmo, não se pretende ideológica e, ao invés disso, propõe uma atitude de observação. Sim, a observação também é ideológica em qualquer caso, mas não entrarei nesse detalhe por ora.

 

“Objetivamente” posso afirmar – “sem” filtro ideológico – que o filme mostra pessoas adquirindo ambulâncias, tal qual táxis, para prestar serviço privado de atendimento emergencial nos acidentes que ocorrem na cidade, utilizando-se inclusive de contatos com a polícia para ter acesso à seus “clientes”; cobram um preço para isso e fazem desse trabalho seu meio de sobrevivência, exatamente como vemos acontecer no Brasil, por exemplo, com a onda de aplicativos de transporte (úteis, diga-se de passagem, em muitos casos), que transformaram-se em fonte de renda – as vezes única – de milhares de brasileiros.

 

ADAM SMITH & MANDEVILLE

Conhecido como uma espécie de ideólogo matricial do capitalismo o economista Adam Smith (1723 – 1790) buscou inspiração para sua defesa do auto-interesse numa obra anterior chamada Fábula das Abelhas de Bernard de Mandeville (1760-1733). Nesse poema o médico holandês propunha, resumidamente, que uma colmeia corrupta funcionava perfeitamente bem, ao passo que, quando seus habitantes pediram aos deuses que acabassem com a corrupção, a abundância minguou e a colmeia faliu. Mandeville propõe isso como paradigma para a sociedade moralista da época, talvez a inglesa especificamente, que na sua visão progredia na fase corrupta e individualista e decaiu no período moralista.

 

Smith, por seu lado, defende as noções iluministas de liberdade associadas às prerrogativas da livre-iniciativa e da defesa do auto-interesse como formas de garantir que, ao buscar vorazmente seu interesse particular, o indivíduo efetivamente contribua para o progresso coletivo, ou seja, enquanto a colmeia murmurante debatia-se entre abelhas egocêntricas a coletividade evolui, e quando é tolhida a busca do auto-interesse a economia das abelhas entra em decadência.

 

Mau comparando seria como ver nas cenas hollywoodianas de Midnight Family um impulso desse gênero: os socorristas, amadores, somente aceleram seus carros porque estão na busca de seu sustento (auto-interesse) e assim aumentariam, teoricamente, as chances de salvar as vítimas, já que motivados por lucro pessoal.

 

Mas, questiono: nas nações em que os salvamentos ainda não foram uberizados, quase milicianamente, bombeiros e socorristas são mais lentos? Motivações filantrópicas são sempre disfarce para o interesse real no dinheiro? Ou podemos ainda acreditar que um trabalhador com salário estável é motivado por impulsos nobres da profissão?

 

São algumas questões que deixamos para o espectador.

 

Recomendo vivamente essa obra, necessária para pensarmos as condições de vida que estão no porvir brasileiro com o neo-fundamentalismo de livre-mercado.

 

 

IMDB

https://www.imdb.com/title/tt6010976/

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