OUVI a música “nova” de Bob Dylan e achei impressionante. Ouvi-a aqui em casa, onde estou isolado há duas semanas acompanhando o espírito de hecatombe sanitária que paira sobre nossas cabeças com a pandemia da COVID19. Talvez esses sentimentos tenham criado uma moldura ainda mais grave ao depoimento que Dylan faz através de sua nova música, Murder Most Foul ou Assassinato mais sujo, numa tradução livre.

Há uma tragicidade lírica (se esses termos tem algum sentido) impressionante, que independem de conhecermos precisamente todas as referências dessa crônica da cultura americana. Ignoro, confesso eu, a maior parte delas. É um mosaico, um prisma palimpséstico de referências e cada um pode pescar quantas delas for capaz.

Ao mesmo tempo acho a música encantadora e desoladora. Encantadora poque parece um revival de toda a vida do cantor, com aquele elã “on the road” de liberdade dos anos de Kerouac e do velho Bukovski, com todas aquelas referências de jazz e folk e de uma nostalgia cultura de amor livre e paz & amor dos anos 60.

A letra de Dylan é uma crônica gigantesca que faz referência, por exemplo, à lenda do assassino Tom Dooley (uma música folk sobre o personagem real gerou um filme chamado The Legend of Tom Dooley – Assassino Covarde Brasil – 1959), passando por Beatles, Woodstock e até mesmo o memorável DJ Wolfman Jack (também retratado no cinema por George Lucas no filme American Graffiti – no Brasil Loucuras de verão – de 1973)

Dula era um ex-soldado confederado que envolveu-se num triângulo amoroso e supostamente acabou matando uma de suas amantes ou assumiu a culpa para poupar a pena da outra, que teria sido a verdadeira assassina, por ciúmes. É uma história escatológica e repleta de mistérios.

Tom Dula

Por outro lado não é somente a tragédia contada de forma brilhante que desola; é que o músico parece ser um puritano. Sim, eu tenho essa impressão da música dele, aí inclusa a poesia, a letra e a sonoridade, que para mim é tudo a mesma coisa. Me fez pensar naquele espírito do escritor Norman MacLean retratado no filme Nada é para sempre (EUA, 1992), do Robert Redford, que remete à um mundo límpido e simples nos campos e nos rios de Montana, quase um mundo idílico. Mas no caso de Dylan é o idílio da nostalgia, porque aquele mundo que ele recorda não era somente beleza.

Dylan parece puritano na medida em que sua obra é uma ode ao trágico assassinato de um presidente, um icônico presidente. Não é uma morte apenas, é uma morte que representa a morte de toda uma alma do país. Mas, dentre tantas questões, eu me pergunto se o cantor pensa nas posturas bélicas de Kennedy, na sua política agressiva da Guerra Fria. Ele realmente representava alguma diferença na política americana?

A música parece mais focada em retratar a cultura americana tal qual ela é retratada, ou seja, a imagem glamourosa e lendária está acima da realidade. Veja um trecho do filme American Graffiti e pense comigo se não estamos diante de um retrato estilizado. É claro, alguém poderia rebater: tudo é sempre estilizado. Não existe o ser em si, puro. Apenas as camadas que dele vemos ou lhe sobrepomos, com mais ou menos beleza e falsidade, nem sempre diferenciado uma da outra.

Vejo o Partido Democrata de nossos dias como um representante hipster dos banqueiros de Manhattan, e talvez tenha sido assim desde que o clã mais nobre da política estadunidense teve seus príncipes assassinados. Mas, assim como me perco nas inúmeras referências da música, também aqui me vejo obrigado a silenciar como mero estrangeiro, ainda que a cultura americana tenha sido tão poderosamente imposta sobre nossas cabeças, nestes tristes trópicos, e é por isso que podemos achar James Dean e Brad Pitt tão bonitos, embora eles sejam o oposto do brasileiro.

Indício dessa impressionante perspectiva de voracidade capitalista é o que acontece hoje em dia nos EUA em que mais uma vez Bernie Sanders é preterido pelo Partido Democrata, o partido de Kennedy para enfrentar o atual mandatário, Trump, um aristo-cleptocrata (com o perdão da redundância, pois não existe aristocrata que não seja ladrão). Dylan aparenta, nos meus ouvidos leigos, ignorar esse tipo de coisa. Seu foco é outro.

Dylan é ressentido? Ele guardou toda essa tragédia durante os últimos 60 anos? A menos que tenha composto a música na ocasião do assassinato de Kennedy (em novembro de 1963)… mas é claro que isso é apenas uma hipótese sem muito fundamento.


Então eles explodiram sua cabeça enquanto ele ainda estava no carro … Abatido como um cachorro em plena luz do dia

Filme de Zapruder que eu vi na noite anterior
Visto 33 vezes, talvez mais
É vil e enganoso. É cruel e é mau
A coisa mais feia que você já viu
Eles o mataram uma vez e o mataram duas vezes
Matou-o como um sacrifício humano

No dia em que o mataram, alguém me disse: “Filho
A era do anticristo apenas começou. ”

A  musicalidade, essa mistura de discurso (letra) e som, faz da nova canção de Dylan um clássico instantâneo, não tenho dúvidas disso. Mas a forma como ele fala da morte de Kennedy é realmente uma forma dura de descrever toda aquela tragédia. E eu me pergunto por que isso vem à tona tanto tempo depois? Não consigo pensar em explicação alguma.

Qual é a verdade e para onde foi?
Pergunte a Oswald e Ruby; eles deveriam saber

Talvez a única resposta possível seja fazer o que Dylan pede na música: tocar, por exemplo, Dumbarton’s Drums:


Ouvir Etta James:

Clapton

Nina Simone

Dançar ao som de Marching Through Georgia…

De Slim Harpo

Ou nos prepararmos para a festa do fim do mundo ao som do The Who:

É isso, os tempos estão mudando…


P.s.: caso você queira encontrar mais referências, a revista Rolling Stone listou algumas bem interessantes:

https://www.rollingstone.com/music/music-news/bob-dylan-murder-most-foul-jfk-references-974147/

Um bônus a mais nessa playlist… da onírica Nina:

Sobre o Autor

Não sou cineasta, mas gosto de criticar o trabalho dos outros rsrsrs

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