O filósofo David Bordwell estabeleceu um esquema de interpretação de filmes bastante aceito no universo da crítica de cinema. Basicamente são quatro significados possíveis que ele descreve (até onde sei) no livro Making Meaning: Inference and Rhetoric in the Interpretation of Cinema (Harvard University Press, 1989): 1- Referencial, o mais básico, e que “refere” praticamente a sinopse ou estória geral que se desenrola; 2- Explícito, remete ao conteúdo das intenções e mensagens do filme; 3- Implícito, envolve uma interpretação que extrai alguma mensagem oculta e 4- Sintomático, apontando sintomas que remetem à uma ideologia por detrás do significado implícito. Os significados são classificados em dois grupos distintos: visíveis, os dois primeiros, e ocultos os dois últimos. A escala que vai do primeiro ao quarto também indica o grau de abstração, sendo o primeiro o mais concreto e consensual e o quarto o mais abstrato e, eventualmente, subjetivo-arbitrário. Dito isso passo ao exercício proposto no título desse artigo: os 3 episódios iniciais da série The Society (Netflix, 2019) podem oferecer esses significados?

O canal de Max Valarezo discute de forma magistral esses quatro significados propostos por Bordwell. Sugiro com veemência que você assista ao vídeo. https://youtu.be/9lZTb7xrcc4

Evidentemente o significado Referencial (1) pode ser obtido de qualquer filme. Em todo caso vamos ao trabalho. The Society é a história de uma cidade acometida por um odor fétido, de origem desconhecida, possivelmente industrial, que causa transtornos nos moradores. Num dia em que o cheiro está fortíssimo a prefeitura organiza uma excursão com todos os adolescentes para fora do município, porém, o passeio fracassa e os ônibus retornam, tarde da noite para casa. A surpresa geral é que ao chegarem os jovens não conseguem contatar nenhum dos seus pais, não há ninguém esperando os filhos na praça, no ponto de encontro; não conseguem falar com seus parentes, os telefones falham e nem mesmo a internet funciona. As ligações dentro da cidade funcionam apenas entre eles, mas quando tentam falar com os pais a caixa postal é a única resposta. Todos os adultos desapareceram. Depois de poucos instantes percebem que nenhum deles conseguiu contato com seus pais, as casas e a cidade estão vazias. A partir daí o drama está entre a espera, o enigma do desaparecimento e as perspectivas de um período (indefinido) sem a supervisão adulta. Detalhe: todas as saídas e acessos da cidade estão estranhamente bloqueados por uma repentina floresta.

Festa na igreja

A primeira coisa que acontece é uma festa que invade até mesmo a igreja da cidade. Confesso que essa cena me fez pensar na transgressão quase clichê proposta. Ao mesmo tempo em que recordei de igrejas usadas paras raves em países europeus (diz a lenda que isso acontece na Holanda, por exemplo, mas não duvido que ocorra em outros lugares) pensei no aspecto sacro do lugar nos seus primórdios pois de certa forma as igrejas eram locais de uma vivacidade incrível, porém, expressa em outros códigos de vitalidade psíquica que não propriamente a embriaguez adolescente. Estaria aqui a série propondo uma crítica ao comportamento juvenil?

Pequenos conflitos, grandes dramas?

O significado Explícito (2) da série poderia ser compreendido como o conjunto de oportunidades e desvantagens da adolescência por ela mesma, isto é, sem o apoio ou as restrições dos mais velhos. A primeira coisa que acontece, como dito acima, é uma festa. Mas em pouco tempo os conflitos aparecem, produzindo reações diversas, umas de afronta, outras de medo. A série afunila com alguma rapidez para o problema do racionamento da comida, que apenas está disponível para saques em supermercados. Seria esse o significado explícito da série? A questão do egoísmo que leva alguns adolescentes a sequestrarem todos os sacos de ruffles que conseguirem mesmo que outras pessoas também queiram?

Aliás o mote da série, nas chamadas e teasers promocionais é um pouco esse: como vão se virar esses jovens diante da condição de decidirem suas próprias regras? Há chance de The Society derivar para aquela lenga-lenga ao estilo “The 100“, mas até onde vi – três capítulos – a série se salva: boa direção de atores, apesar da estereotipia e desproporção das figuras dos adolescentes, ótima fotografia, excelente trilha sonora. São pontos positivos.

O significado Implícito (3) poderia interpretar a situação dos personagens da série como uma simbologia para a condição adolescente, ou seja, um estar abandonado à própria sorte, uma espécie de metáfora do amadurecimento e suas agruras, uma alegoria para a condição isolada de cada um nesse processo. Mas também pode ser tomado na referência ao famoso livro Senhor das Moscas e debater justamente esse “estado de natureza” essa condição de homem lobo do homem. E aqui as coisas se amplificam porque há momentos em que os jovens chegam a discutir socialismo sob uma perspectiva pragmática do homem medíocre atual. É curioso vê-los citar essa palavra, quase uma blasfêmia no status quo norte-americano. Mas há também questões de gênero envolvidas quando as meninas convocam uma reunião exclusiva para debater a violência masculina: “A testosterona vai nos matar se não fizermos nada” diz uma das protagonistas. É preciso agir antes que comecem os estupros.

Thomas Hobbes, e sua clássica frase sobre o ser humano

E aqui estamos praticamente diante do significado mais abstrato, o Sintomático (4), que expressa uma ideologia adjacente às mensagens implícitas da série. O que mais me chamou a atenção nessa reunião feminina foi o fato de decidirem tentar influenciar o pensamento dos meninos através das namoradas. A manipulação sexual, aliás, fica evidente numa cena em que duas personagens conversam sobre o “domínio” que uma delas exerce num garoto nerd. Porém nesse caso a série praticamente explicita uma condição da dita fragilidade feminina em situação natural de desvantagem com os meninos, e o fato de terem de lançar mão dessas artimanhas para alcançarem seus objetivos também sugere uma posição de necessidade. A sensualidade, aliás, é um elemento bastante enfatizado na série que aposta forte nesse clima para retratar a própria questão da sexualidade vivida na adolescência, inclusive como a beira do abismo.

É muito curioso observamos a ascendência que a jovem protagonista possuía antes da “queda” para o “estado de natureza” e o desfecho da sua personagem agora que vale a lei do mais forte. Hobbes e Rousseau são dois filósofos antípodas no bojo do debate sobre o jusnaturalismo, ou seja, uma justiça natural e um estado de natureza. Enquanto Hobbes vê no homem o seu próprio predador, Rousseau defende a figura do bom selvagem. Ambas as teses talvez pudessem ser complementares se tomarmos a sério a maneira como The Society apresenta a natureza humana: dóceis predadores juvenis, vorazes mas também adaptáveis ás regras sociais.

1º adendo ao significado Sintomático (4): até aqui observei apenas os três primeiros capítulos e, embora a série tenha aquela edição juvenil estúpida que, por exemplo, tenta insinuar uma rotina no refeitório muito rapidamente alcançada, ela também quebra essa rotina quase que instantaneamente e faz referência de forma quase explícita aos massacres com armas nas escolas, à cultura bélica da defesa, o que sem dúvida é um tema atualíssimo num mundo onde compra de armas pela internet quase compete com o fast food. Valeria a pena refletir mais para desenhar melhor de que lado The Society fica nessa “guerra cultural”. Por último cabe alertar para a eventual centralidade de certos dramas juvenis o que faz a série perder alguma densidade, não pelo fato de que o mistério da situação seja deixado de lado, mas porque alguns desses dramas acabam sendo clichês e superficiais, ou seja, pouco verossímeis.

2º adendo ao significado Sintomático (4): já a partir do capítulo 4 além do problema do amadurecimento muito rápido, e novamente, inverossímil dos personagens, temos cenas que apontam para uma crítica ao monopólio das armas, ou seja, a série parece ecoar a ideia de um cidadão, uma arma.

3º adendo ao significado Sintomático (4): algumas partes do enredo são muito preparadas para certos desfechos e incomoda demais, do capítulo 5 em diante a artificialidade na emulação do mundo adulto, quando não é uma pretensão de sabedoria, uma capacidade de falar a frase certa na hora certa também acaba por tornar a série um pouco enfadonha. Essa dramatização adolescente incomoda, essa novelização, as intermináveis subtramas, cortes abruptos e bipolaridades de personagens também acabam por piorar a qualidade do show. Porém há mais aspectos que insinuam uma ideologia ou uma conexão com os debates ideológicos atuais, notadamente nas questões de gênero. Observem a cena abaixo, incluso o cenário e a fala:

Detalhe para um quadro negro e dois animais iluminados ao fundo

Pois bem, tornou-se patente dizer que as reivindicações identitárias no mundo atual sufocam o tradicionalmente o privilegiado homem branco, hétero, proprietário. A fala de Harry é praticamente a escrita desse ressentimento que inclusive é sociologicamente responsabilizado (entre outras causas) pelas eleições de crápulas plutocratas como Trump ou de milicianos como Bolsonaro. A misoginia nos é apresentada como causa/motivação para um crime na série.

Mas em seguida temos isso: Harry reconhece que desejou a morte de uma personagem – justamente a representante de um progressismo includente – porém admite seu erro, admite sua vulnerabilidade.

Há um herói branco redimido a caminho?

***

P.s.: o final do terceiro episódio conta com a música maravilhosa do artista Perfume Genius, cuja trajetória de vida é diretamente ligada às questões humanitárias, LGBTQ e mesmo de violência doméstica. Ainda que o espectador não saiba nada disso a música produz um amálgama brilhante para esse fim de episódio.

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