O trocadilho barato desse título é inspirado no terror canastrão de Jordan Peele “US” (EUA, 2019). O filme parece surfar na onda gourmet que assola o gênero, ao menos inicialmente, com alguns zoom’s ao estilo de Hereditário (EUA, 2018), focos brincando com a regra de terços, e etc; mas logo deriva para algo que somos forçados a acreditar que seja uma homenagem ao terror “sessão da tarde” dos anos 80: desde clips de Michael Jackson até Tubarão (EUA, 1975).

As imagens repletas de tantos elementos parecem berrar ao espectador “veja, ‘nós’ temos muito a dizer”. Desde a praia com centenas de figurantes, supostamente simbolizando algo, até brincadeiras com versículos da Bíblia entre outras supostas alegorias mal feitas.

Essencialmente o filme é sobre máscaras, mas bem poderia ser um curta ou média metragem. As duas horas de duração que vagueiam entre um drama familiar, um trauma de infância, arte erudita e uma comédia-terror pastelão só se explicam como homenagem a algum gênero de filmes B.

(Spoiler possível) O plot twist do filme é completamente inofensivo e eu me pergunto que diferença ele faz… ? A personagem não é exatamente aquela que pensávamos, na verdade ela é sua cópia que tomou seu lugar na infância mas qual é a consequência disso? Nenhuma.

Tive a impressão de que Jordan Peele quis fazer um filme despirocado e fez. Tem pouco a dizer, basicamente é sobre máscaras: de pai, mãe, amigo, filho e etc. Mas não serve nada nesse sentido, não ser como metáfora de si mesmo, ou seja, o filme mascara-se em torno de sua temática. Talvez a mensagem mais profunda seja essa, forçando muito: nós temos pouco a oferecer além de uma brincadeira de máscaras. Mas e daí?

Metáforas sobre … ? Nada. A única tensão interessante é a que denota uma espécie de conflito de classes, entre incluídos e excluídos, uma família de baixo e uma de cima. Aqui nós teríamos o ponto central de uma insinuada crítica à meritocracia. Ponto importantíssimo no mundo contemporâneo, sem dúvida, mas justifica todo o malabarismo bobo?

É possível que um filme apresente símbolos sem ser metafórico ou mesmo sem explicá-los, mas no caso desse filme é como partir de uma pegadinha com o espectador que fica que nem bobo procurando significados que sequer existem, são acessórios ou meramente paralelos.

Além disso considerando que o filme anterior de Peele (Get Out, EUA, 2017) tinha uma alegoria central bastante clara e esse, por sua vez, não tem nenhuma explicitamente assumida, talvez esteja aí a liberdade que o diretor assumiu de não querer dizer nada ou buscar uma sutileza curiosa em meio a tantas bizarrices quase ao modo de filmes B. Corrigindo: a crítica à meritocracia é válida, é séria, mas parece disfarçada ou diluída nas pretensas camadas com que o filme tenta enganar o espectador.

Não existe nenhuma pura experiência sensorial desprovida de discurso, essa me parece uma condição da arte humana; acontece que nesse filme o discurso é limitadíssimo, desinteressante ou disfarçado demais. Tomadas essas duas horas como um videogame de terror fraquinho ele faz sentido, funciona. Talvez devamos comemorar essa liberdade do diretor e exaltar a crítica à meritocracia, porém há momentos em que o filme torna-se cansativo com sua estrutura de terror grandiosa, desde a música, até os trejeitos interpretativos dos atores, clichês de gênero e jumpscare’s prorrogados.

A temática central, ou o tema realmente importante – a crítica à meritocracia social – está tão disfarçada que parece uma espécie de virtuosa sutileza manipulativa da filmografia. Perfeito para o playstation. Não duvido que uma dia apareça um game na steam.

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