Antes de assistir ao filme de Sam Mendes, 1917 (EUA, 2019) eu fiz o seguinte post no facebook:

Basicamente o filme confirmou a expectativa, com alguns adendos extremamente negativos e um ou outro positivos.

O ponto positivo de partida é uma reflexão sobre a brevidade e a fragilidade da vida. 1917 tem seu valor nesse sentido embora erre feio ao não sustentar essa reflexão. E aqui já entramos nos problemas.

Áudio-imagem!

A música é cansativa e forçada; a profundidade de campo explorando repetidas vezes os desfoques de fundo é exaustiva e nada acrescenta; ou seja, aquele item técnico que todo mundo elogiou no filme, a cinematografia, para mim é um horror. O próprio falso plano sequência é uma muleta que pouco ajuda, para além do experimentalismo técnico, que é admirável, sem dúvida, ainda que aqui esteja pendendo para mero preciosismo.

Enredo!

A história é muito próxima de Dunkirk (EUA, 2017) em termos de vazio, embora seja um pouco mais preenchida. A epopeia me fez pensar no filme de Inãrritu, O Regresso (EUA, 2015) aquele sim magistral em termos de fotografia. Cavalo de Guerra (EUA, 2011) e Resgate do Soldado Ryan (EUA, 1998) também completam a lista de referências que justificam o título desse artigo.

O horror!

Não estou me referindo a famosa frase que aparece em Apocalipse Now (EUA, 1979), mas num aspecto do filme de Sam Mendes que parece impor-se à medida em que se desenrola. No início seu aspecto sombrio está sempre preparando terreno para algum poderoso jump scare e o filme de fato faz isso melhor do que 90% dos filmes de terror da década passada.

Enquanto assistia eu ansiava por uma representação mais adequada da mentalidade da época; por alguma indicação mais consistente sobre o homem daquele período histórico. Pouco ou quase nada me foi entregue nesse sentido. É como se fosse, em alguns casos, um soldado que poderia estar no Vietnã, ou até na Invasão do Iraque. Não há nada que diferencie esses momentos históricos?

A própria definição de memória ou reconstituição histórica é algo difícil, sem dúvida, e talvez devamos aceitar que o homem de 1917 seja o mesmo de 2020. Aliás, o título – 1917 – parece ser outra lacuna do filme porque ele bem poderia acontecer em 14, ou mesmo 18.

Mas uma das 3 cenas que mais achei fortes, justamente pelo horror, talvez tenha um apelo histórico, afinal. Estou pensando no momento em que o cabo Schofield enfia a mão, ferida na cerca de arame farpado, sem querer, dentro de um cadáver. O que tem de histórico numa imagem draculesca como essa? Como espectador a resposta para mim foi imediata: ainda não existia penicilina e aquela mão representava sério risco de morte.

Na sequência de todas as peripécias a câmera segue conduzindo nosso olhar e artificializando a mise en scène que se pretendia fluidez. A “reconstituição” de armadilhas é bem feita, admito. Mas já são mais de 30 minutos sem que a música páre e de repente, do nada, ela cessa diante das cerejeiras. A ideia é, penso, humanizar o personagem de Blake. E isso já nos dá uma pista sobre seu futuro.

Ora, e que solução poderia ser dada à esses personagens? Há clichês em todas. O filme simplifica.

A segunda cena que também gostei muito talvez seja uma inscrição rupestre da história, história da tecnologia no caso. É o momento da queda do avião, transformado em instrumento de guerra mortal. Pode-se pensar nos drones e “calcular” até onde essa tecnologia alcançou letalidade nos nossos dias. Os efeitos da cena são muito bons.

E a última cena que admiro nesse filme é aquela sequência em Scholfield acorda e já anoiteceu mas lá fora o céu está iluminado pelo bombardeio. O movimento da câmera nos leva para espécie de “ópera luminosa” e eu associei a imagem a dois dos melhores filmes de guerra que já vi, Império do Sol (EUA, 1987), primeiro, e em seguida o maior de todos, A Infância de Ivan (Rússia, 1962). São associações subjetivas e arbitrárias e eu poderia acrescentar até mesmo uma pitada de O Pianista (França, 2002).

Essas são as minhas cenas/imagens preferidas e, apesar das coisas que considero desagradáveis, devo dizer que o filme está bem acompanhado, em termos de associações, ainda que meramente subjetivas, com os clássicos, muito superiores que citei.

Uma cena hollywoodiana final, de ação, que talvez leve a obra a vencer o Oscar, é como classifiquei, hollywoodiana, ou seja, força os tons do heroísmo. Mas está aí para coroar o ponto a que o espectador é conduzido se tiver boa vontade com o filme.

E, por fim, devo dizer que o filme tem dificuldade em perseguir uma temática definida (a morte, a solidão, a esperança?) mas, talvez, o problema seja inerente ao fato da guerra: é quase impossível explicar porque cada homem foi parar lá. E aqui, quem sabe, um mérito do filme: é a política que conduziu cada cabeça para as forcas de arame farpado. Não tenho certeza se Sam Mendes pretendia algo assim, ou seja, algo além de contar uma história que seu avô lhe contava. Talvez na sua filmagem cuja tentativa pode ser insípida, ou neutra, se preferir o termo, no seu gesto de contar uma estória ele é inevitavelmente político. O narrador é um político, como diria Walter Benjamin.

P.s.: um leitor me pediu para esclarecer melhor a minha opinião sobre ser um filme político, então lá vai: a direção de Sam Mendes, não é boa, é apenas mediana, padronizada. Eu escrevo torto, mas o que quis dizer é que não era intenção do diretor ser político, ao contrário, seu filme é insípido, ele só quer contar uma estória. Mas, parto da filosofia de Benjamin para sustentar a ideia de que o narrador, do filme (ou qualquer narrador, segundo a perspectiva do filósofo alemão) é político por natureza! No caso de 1917 é como se fosse uma excrescência que talvez ele sequer tenha intentado. Digo quanto ao sentido daquilo tudo, da guerra como uma mobilização e morte de seres humanos em função do interesse de terceiros, ou seja, decisões e privilégios políticos.

Sobre o Autor

Não sou cineasta, mas gosto de criticar o trabalho dos outros rsrsrs

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