O objetivo desse artigo é apenas comparar umas poucas imagens da série Euphoria com o documentário Pahokee.

Euphoria é uma série da HBO criada por Sam Levinson e que se pretende um relato realista da juventude americana enquanto Pahokee é um documentário produzido por Ivete Lucas e Patrick Bresnan sobre uma pequena cidade no interior da Flórida que busca retratar a vida de alguns jovens estudantes locais.

Ambos tem o mesmo foco: a juventude americana e seus dramas. Os ambientes são, porém, muito diferentes: Euphoria se passa num subúrbio de classe média alta, suponho, enquanto Pahokee é uma cidade interiorana. As duas locações dão a impressão de mundos à parte, como se estivessem em locais virtualmente isolados, ainda que conectados ao mundo da internet e seus dramas subjacentes.

Euphoria mostra uma juventude dionisíaca e abonada, enquanto Pahokee retrata jovens às voltas com dificuldades financeiras. Os dramas culturais modernos que a série da HBO quer desenhar são todos bastante atuais, é verdade. Dizem respeito justamente ao bombardeio de questões midiáticas e chocantes, notadamente, sexo, drogas e violência. A impressão que tenho é que, com todo seu charme e brilhantina, Euphoria é sintoma e causa de uma determinada problematização as vezes glamourizadora das questões que explora, comercialmente inclusive.

Evidentemente assuntos como gênero, masculinidade, sexualidade, moralismo e mesmo programação de vida são muito relevantes na perspectiva que a série levanta. Mas são todos abordadas dentro de um enredo que eu chamaria de quase aristotélico-shakesperiano: como numa novela das 8 somos levados a odiar certos personagens e torcer por outros numa cadeia de eventos que segue o rumo de um conto de Agatha Christie, com direito inclusive àquela didática narração off. Talvez justamente por esse formato tão classicamente bem sucedido a série prenda a atenção.

A juventude diversificada de Euphoria

Algumas críticas que o show provocou foram realmente iradas: grupos de pais chegaram a pedir o cancelamento da série por conta de imagens que eles, no seu moralismo podre (redundante, todo moralismo é podre) consideraram chocantes, como aquela do vestiário com vários nus frontais masculinos, vários pênis, diga-se. Além disso a série poderia padecer de comparação com 13 Reasons Why (série Netflix) por exemplo, acusada de ser apologia ao suicídio, outra afronta aos moralistas. No caso de Euphoria a temática do abuso de drogas poderia ser o filão para essas críticas, mas, inclusive aqui as coisas se encolhem rapidamente e nossa protagonista uma junker viciada contemporânea, interpretada por Zendaya, logo se converte, em poucos capítulos, numa adolescente construtiva e edificante, embora sustente alguma aura anti-heroína.

Ritmo de videoclipe, qualidade impressionante de imagens, câmeras de superprodução, trilha sonora exuberante entre o clássico e o trap-pop, cores e luzes. Euphoria faz jus ao nome inclusive nos momentos “american pie” e no retrato dos micros sucessos juvenis de uma sociedade do espetáculo. É preciso ressaltar que algumas das denúncias da série são realmente impressionantes e merecem ser pensadas com cuidado, como a questão do bullying, da pressão pelo sucesso, da transsexualidade juvenil, e etc.

Pahokee, por seu lado, em suas quase duas horas de duração poderia ser encarada como uma espécie de antítese do mega sucesso da HBO. É um filme que deveria ser visto antes ou logo após a série. Sua perspectiva é, essa sim, realista, documental, ainda que se possa dizer que documentários também são narrativas retoricamente montadas, do mesmo modo que a ficção.

A cidade localiza-se no interior da Flórida e retrata uma juventude negra e latina, com questões muito menos espetaculares, mas nem por isso menos interessantes, dramaturgicamente inclusive.

Ao contrário do subúrbio de Euphoria, mostrado predominantemente a noite, com uma curiosa mistura de segurança e suspense, a pequena cidade nos é mostrada às claras, com seus desfiles, suas ruas e ginásios.

As questões de um documentário, evidentemente, são mais diretas, e nesse caso preservam uma espécie de foco mais definido: qual o futuro dessa juventude? Serão atletas bem sucedidos? Terão os melhores empregos? Conseguirão saúde emocional?

A still from Pahokee by Ivete Lucas and Patrick Bresnan, an official selection of the U.S. Documentary Competition an at the 2019 Sundance Film Festival. Courtesy of Sundance Institute | photo by Patrick Bresnan All photos are copyrighted and may be used by press only for the purpose of news or editorial coverage of Sundance Institute programs. Photos must be accompanied by a credit to the photographer and/or ‘Courtesy of Sundance Institute.’ Unauthorized use, alteration, reproduction or sale of logos and/or photos is strictly prohibited.

Bem podem ser as mesmas questões da série, mas aqui elas possuem uma espécie de imanência sutil e ainda assim poderosa. Pahokee é um retrato de uma juventude americana que pode não ser, afinal, uma exceção. Euphoria talvez seja.

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