Este humilde “artigo” é dedicado à memória de João Pedro Mattos, 14 anos, assassinado pela polícia no Rio de Janeiro e à George Floyd, assassinado pela polícia em Minneapólis. 

Quero começar explicando o título desse texto: não estou exatamente interessado no esporte, o basquete, mas em dois docs exibidos na Netflix: o Last Dance (2019), sobre Michael Jordan, que está na crista da onda, de um lado, e um outro cujo título original é L.A. 92, que aparece como Um Crime Americano (2017). Aviso: essa é uma crítica moral. E já adianto que apesar de o L.A. 92 ter um “score” menor do que Last Dance no iMDB, ele na verdade é muito melhor.

Mas vamos lá. Assisti The Last Dance, série dirigida por Jason Hehir, aparentemente um fã inveterado de Jordan, e produzido pela ESPN e Netflix, assisti completo, ou seja, é  um ótimo entretenimento dentro das fracas opções disponíveis no gênero documentário na Netflix e em streaming comerciais de um modo geral. Pode-se dizer que a série tem seus momentos, embora, eventualmente entendiante.

Last Dance segue um padrão hollywoodiano de documentários, sem dúvida, embora me pareça um pouco menos sensacionalista do que outras obras do canal como, por exemplo, o excessivamente aclamado Tiger King, que tem seus méritos também sem dúvida, ainda que padeça do pecado capital de naturalizar o white trash americano, mas isso é assunto para outro texto.

Poderíamos citar o começo dessa tendência de documentários, razoavelmente interessantes da Netflix com o intrigante Making a Murderer (2015), obra de impacto, passando por Wild Wild Country (2018), até o recente lançamento Condenados Pela Mídia (2020), quase um meta-documentário sobre a arte de ganhar dinheiro em cima do sensacionalismo reificado, ao menos no seu primeiro episódio.

O modelo repete-se à exaustão: um caso envolvendo um crime, um ritmo de vai e vem na evolução dos casos, trilha sonora com aquela dinâmica de filme de suspense, etc, etc. A maioria dos documentários comerciais obedecem essa receita e The Last Dance não é totalmente diferente. Mas, como sabemos na culinária, a dose dos ingredientes pode mudar o sabor do prato final! Nesse sentido está quase no ponto, talvez com um pouquinho de sal a mais na figura de Jordan.

Aqui aproveito para apontar o dedo: Michael Jordan não apoiou um candidato preto ao senado, nos anos 90, que disputava pela Carolina do Norte, contra um oponente racista. “Republicanos também compram tênis” teria dito o atleta. Uma posição extremamente covarde e com resultado ruim: o senador racista foi reeleito. Ora, só isso seria suficiente para cancelar, como se diz hoje em dia, o ícone do esporte. Mas, deixemos esse gesto de lado e vamos em frente.

Salta para 2020: LeBron James no Los Angeles Lakers. Não sou conhecedor de Basquete, sei apenas que LeBron jogou a maior parte da sua carreira em Cleveland, mas hoje é atleta do Lakers. O meu ponto é apenas um: publicamente ele se posiciona, não tem medo de perder compradores de tênis. O cara apoiou Hillary Clinton, contra Trump, o que também não é muito, considerando que Bernie Sanders seria muito melhor, evidentemente. Sim, hoje é até mais fácil dar a cara a tapa, e então a gente pode ver uma foto como essa, em referência ao cruel assassinato de George Floyd:

Mas, como sempre digo quando estou jogando AgeOfEmpires com meus brothers “é melhor que nada”. O racismo não piorou, ele apenas está sendo filmado, como diz Will Smith, o que praticamente torna mais fácil qualquer um se posicionar e dizer o quão é absurdo. Jordan, insisto, não perderia nada se tivesse assumido a defesa da causa em 1992. Pelo contrário, só teria a ganhar.

Last Dance em seus momentos mais poéticos eu chamaria de “a última dança romântica de corpos pretos mercadificados“. A leitura mais comum é de que seu “jordancentrismo” favorece o jogador, mas, continuando na crítica moral, saí dessa com uma visão ainda mais positiva de Scott Pippen do que de Jordan! Achei a coisa mais absurda um jogador daquele nível recebendo salário de estreante na NBA e com a anuência de Jordan, que evidentemente não seria quem é sem Scott.

As passagens mais interessantes, na minha opinião, são as que focam em Scottie, e, mesmo enfatizando episódios negativos, como a recusa dele de entrar em quadra em determinado momento (justa, por sinal) me parece que ele é uma figura muito mais interessante que Jordan. É um coadjuvante, mas é uma pessoa muito diferente.

Michael é um alfa tradicional, nada além disso, comum. Pippen é quase um monge budista em quadra e fora dela. A sua fala para Malone no jogo final foi sutil como um golpe de gafanhoto, mas precisa como ferroada de abelha. Achei supimpa vê-lo mais velho e falando calmamente sem nada tão egoico quanto vemos em Jordan.

Os momentos em que Pippen é descrito na sua personalidade tímida me parecem os mais singelos do filme. E correspondem aos momentos em que o documentário vai ganhando importância; para além da denúncia ao tratamento injusto dedicado ao atleta, nesse ponto o filme transita: de um documentário lambe-bolas de Jordan a obra passa a ser, efetivamente, um estudo de personagem, inclusive com a inserção do também fundamental e interessantíssimo Dennis Rodman.

Mas enquanto Chicago festejava a expansão da NBA – eles chegam ao absurdo de dizer que os Bulls eram campeões mundiais – em Los Angeles a cidade se erguia em chamas contra uma polícia racista, que na verdade reflete uma sociedade racista.

O filme L.A. 92 dirigido pelos vencedores do Oscar de melhor documentário de 2012, T. J. Martin e Daniel Lindsay já abre com um ritmo poderosíssimo: acho que a música e o som da abertura (e do filme inteiro) são magistrais, são poderosos dramaturgicamente.

A frase de abertura, de autoria do abolicionista negro Frederik Douglass nos faz pensar no próprio valor de aprender com a história: “Temos que ver o passado apenas como útil para o presente e o futuro“.

A música segue um crescendum impressionante, naquela que considero uma das melhores aberturas que vi no cinema. No auge o som corta bruscamente, sem fade, e aparece um jornalista branco calmamente explicando onde os conflitos começaram. E o que se segue é uma dança de imagens fantasticamente sequenciadas, uma coreografia de combinações audiovisuais.

L.A.92 é onde eu vi um herói preto de verdade, demonstrando uma incrível grandeza de coração. Rodney King foi covardemente espancado por policiais, e o fato de estes terem sido posteriormente inocentados apesar das provas, produziu uma onda de revolta e conflitos nunca vista na história moderna do ocidente. Pois bem, esse homem que tinha sido espancado e quase morto com diversas fraturas foi à público pedir a pacificação da cidade. Quase uma semana de destruição – eu diria até que uma justa reação – que aparentava não ter fim.

King é a imagem de uma humildade que acho impressionante, algo que a visão de Scott Pippen também me transmite: um oprimido capaz de superar a vontade de vingança. E embora todos tenham limite aqui são dois homens sofridos, exemplos de toda uma comunidade de afro-americanos, descendentes de seres humanos escravizados.

L.A.92 também mostra cenas aterrorizantes das agressões ao motorista Reginald Denny, violência inaceitável sem dúvida, mas que foi noticiada no Brasil como o retrato dos negros americanos, a ser evitado, evidentemente, segundo o viés da mídia. O próprio King parece um homem extremamente atormentado e que é induzido/forçado a falar, a pedir paz.

Em ambos os casos que aqui coloco lado a lado, Pippen e King, ressalvadas as devidas proporções, uma bondosa resignação parece caracterizá-los e isso me fez pensar que, de certa forma, contrariam Douglass, autor da frase que frase aparece como epígrafe de L.A.92, visto que o abolicionista do século XIX propunha o enfrentamento bélico do racismo.

É sem dúvida um aprendizado que, a julgar pelos crimes contra pretos e pobres, tanto o Brasil quanto os EUA ainda não assimilaram e talvez precisemos, afinal de outra frase de Douglass:

Sem luta não há progresso. Aqueles que professam em favor da liberdade, e ainda depreciam a agitação, são pessoas que querem ceifar sem arar a terra. Eles querem chuva sem trovão e raios. Eles querem o oceano sem o terrível bramido de suas muitas águas. Esta luta pode ser moral; ou pode ser física; ou pode ser ambas, moral e física; mas ela deve ser uma luta. O poder não concede nada sem demanda. Nunca concedeu e nunca concederá.”

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Sobre o Autor

Não sou cineasta, mas gosto de criticar o trabalho dos outros rsrsrs

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