O filme de abertura do excelente Festival OLHAR DE CINEMA de Curitiba em sua 8ª edição foi o documental “Banquete Coutinho” (Brasil, 2019) dirigido pelo Josafá Veloso. Nesse doc sobre o documentarista temos uma entrevista feita 2 anos antes da trágica morte de Coutinho.

Algumas lições são dadas explicitamente acerca do estilo do consagrado documentarista: Coutinho fala sobre a captura do instante, sobre a mágica do momento, uma espécie de reificação do “agora” por oposição à rotina, uma montagem que é quase ficcional, nas palavras que ele mesmo pronuncia. 

 

Para mim, no entanto, o mais curioso desse filme é perceber uma espécie de simbiose pedagógica entre Josafá e o “estilo Coutinho”. Quando falo em “estilo Coutinho”, na falta de expressão melhor, refiro-me à curiosa e quase aconchegante discrição com que o cineasta interroga e investiga seus entrevistados. Josafá parece emular esse estilo no seu próprio filme: é quase um plágio, se quisermos ficar numa opinião ranzinza, mas é também um olhar inteligente de admiração e devoção ao mestre.

 

O Fim e o Principio” (Brasil, 2006), declarou-me Josafá, numa breve conversa ao final da sessão, se tivesse que escolher um filme de Coutinho seria esse; é a obra em que Coutinho viaja ao sertão da Paraíba, supostamente sem tema nenhum. Só esse fato já nos valeria um pequeno debate filosófico que deixarei de lado, por ora, mas que partiria da ideia de que nunca andamos a esmo, sem direção ou mesmo sem sermos direcionados.

 

Josafá refere-se à Chico Moisés como um personagem, e isso de fato é curioso, porque trata-se de um senhor entrevistado no magistral filme de Coutinho cuja cena está nos começos de Banquete Coutinho e que com seus trejeitos parece criar uma espécie de mise-en-cene. A espantosa sabedoria da cena, porém, verte do diálogo:  

 

– Acha que eu sou sabido?

-Acho.

– Como? Só porque eu tô sendo filmado assim?

– Eu vi que o senhor tinha umas ideias interessantes, o senhor pensava …

– Que pena, neh? E o que sei num diz. Só fiz começar. Tudo é sabedoria, tudo é inteligente aqui. Aí pegou esse matuto véio aqui conversando esse tipo de coisa má num sei se eu sei. Pense que sei, será que sei?

 

Se posso brincar com os rótulos diria que o diálogo acima quase parece uma mistura de sabedoria socrática com a dramaturgia de Grande Sertão, Veredas

 

Além das cenas bonitas, como por exemplo, no começo, uma menina, dando a definição de Deus e fazendo uma oração, trechos de filmes ficcionais pouco conhecidos de Coutinho etc., o filme de Josafá também possibilita espaço para referências filosóficas, desde a arte como linguagem em Walter Benjamin, filósofo cuja obra tem algum foco nas noções de aura e magia, até uma curiosa concepção de sujeito.

 

Aliás esse acaba por ser um debate também fundamental que coloca no centro da reflexão à noção de “eu” ou de “sujeito”: eu sou alguém que se encontra em determinado lugar e nada além disso, muda o lugar, transforma-se o eu, quase um pequeno resíduo dessa ambientação. Concepção interessante e quase estoica para quem documenta os movimentos humanos. 

 

A discrição de Coutinho é emulada estilisticamente por Josafá e mantém inclusive sua dose de aconchegante racionalidade. Há uma tese central, discreta e simples, uma linha seguida do começo ao fim do filme. Uma tese simples. Mas o filme cumpre o que promete. E o que ele promete e o que é essa tese?

 

É pensar que todos os filmes de Coutinho são o mesmo filme e todos os personagens são alter egos do cineasta. O depoimento de Coutinho corrobora: eu só sou alguém no outro e outro só é alguém em mim.

 

 

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