Acabo de ver o filme de abertura do 9º Festival Olhar de Cinema, a obra intitulada “Para onde voam as feiticeiras”.

Sou uma pessoa solitária, mas não dá pra viver sozinho o tempo todo. Até certo ponto vai, e nesse ano de pandemia e home office a coisa foi mais intensa. Estou há 7 meses recluso, quase em prisão domiciliar, não integrei nenhum coletivo físico desde o dia 20 de março. Gosto da solidão, não sou uma pessoa de equipe. Mas o Festival é um espaço onde eu me socializo, minimante, porque sento ao lado de um monte de gente que gosta de cinema.

Raramente converso com alguém lá, e quase que a maioria passa por mim como se fossemos, eu e eles, aqueles bonecos de papelão usados nos estádios de futebol sem torcida, que representam torcedores. Mesmo assim, é um espaço aconchegante, em alguma medida. De vez em quando você encontra alguém na saída e consegue se comunicar sobre o filme. Acontece. É que o filme se passa na mente, e a mente funciona como um filme. Claro que alguns trechos são intercambiáveis.

Eu desprezo as multidões, sou um nietzschiano inimigo do rebanho, em todos os sentidos, até mesmo quando é edificante. Gosto de ruminar minha autenticidade, gosto de criar um teatro solipsista onde estabeleço minhas próprias reflexões de um ponto de vista próprio, no sentido de apropriação, não gosto de ser teleguiado, nem por utopias, muito menos por fundamentalismos.

Mas esse ano sequer tive a oportunidade de partilhar uma sala de cinema no Festival. Pensei “que momento triste, que ano triste, ter que assistir em casa, sozinho”. Politicamente, então, a coisa parece pior: vivemos hoje governados por um milicianato, amparado inclusive pela justiça e pela mídia, cuja vertente empresarial adora dinheiro, custe o sangue que custar. Socialmente nos distanciamos, literalmente, entre gente moderna de um lado, e gente escrota de outra que é histérico religioso, criminoso violento anti-direitos humanos ou simplesmente “fiscal de cu”. Eis o dilema, e tudo isso com o país caminhando para 150 mil mortos pela doença da Covid-19.

O Brasil parece anestesiado. Aqui aceitamos que pessoas sejam mortas pela cor da pele ou por sua identidade sexual. Aceitamos 60 mil assassinatos não resolvidos por ano. É uma zona de guerra. Esse povo aceita. E agora aceita a morte pela doença, encarada como tragédia inevitável, num país capitaneado por assassinos.

Porém, não é uma aceitação saudável, como eu entenderia uma aceitação filosófica pessimista da existência. É na verdade sintoma de pobreza espiritual, de stress pós-traumático no imaginário do cacetete, do tronco e do pau de arara.

Esse é o Brasil, que queima, que arde. O pobre brasileiro segue cada vez mais animalizado no mercado, mas desprovido da natureza do animal, como um bicho enjaulado por anos. Isso não significa que não exista, eventualmente, momentos de alegria, desde a celebração progressista até festa de milicianos. Claro, eles comemoram a extorsão e o sadismo, a cada opositor linchado moralmente ou torturado e morto, como acontece todo dia. No Brasil líderes de esquerda são assassinados sistematicamente. Índios, pretos, mulheres, trans, e etc também.

No dia-a-dia eu sinto nojo, asco, raiva, ódio mesmo, de passar por alguém e supor que ele tenha votado no atual ocupante da presidência da República, um milico-evangélico fascista. Não parece mais existir possibilidade de sociabilidade com a parte fascista do país, mesmo que essa parte tenha gradações de intensidade de crimes. E esse é o drama.

Mark Fisher, filósofo inglês, falava num lento cancelamento do futuro, da impossibilidade de sonhar com um mundo diferente. Era mais fácil o mundo acabar do que o capitalismo acabar, dizia ele. E essa verdade está incrustada na mente das pessoas de tal modo que podem até mesmo negar o liberalismo se este contestar a vida como conta bancária. Dificilmente o liberalismo faria isso, mas, supondo que o fizesse tenho certeza que abririam mão da liberdade mas não do capitalismo.

O lema de Porto Alegre, nos anos de Fórum Social Mundial era “Um outro mundo é possível”. Parece que não é. O mundo só pode obedecer as corporações com suas técnicas de domínio e mercado. Não pode existir nada diferente.

No fundo talvez seja esse o problema. Aqueles que normalizam os corpos acreditam cegamente nesse critério do dinheiro para determinar os padrões e os meios de continuarem seu domínio, como se fosse natural. E os que são dominados mordem a isca. Sociólogos que definam essa sociedade brasileira: fanática por uma meritocracia falsa na economia e cega de conservadorismo na vida social. E claro que isso não significa falta de putaria, de eroticidade. Tem isso, sim. Mas com sua dose cavalar de hipocrisia.

Pois bem, nada disso está dito no filme “Para onde voam as feiticeiras”. Esse diagnóstico pessimista do Brasil não esta lá de maneira peremptória. O belo filme com direção coletiva de Eliane Caffé, Carla Caffé e Beto Amaral, é uma arte anterior à pandemia. Sim, ele foi feito no período de eleição do grupo golpista e fascista, em 2018, mas pelo menos não tinha o vírus da doença.

Há um momento em que um personagem do filme fala “isso é cinema, não é teatro”. Mas acho que discordo. É teatro e muito. O que não é demérito algum. Li algumas pessoas que criticaram um filme lindo, Fences, do Denzel Washington por conta de sua teatralidade, e isso me parece um contrassenso. O teatro é arte da imagem sim, assim como o cinema é arte da dramaturgia sim (mise en scene se quiserem).

Eu não gosto da alegria dos atores de teatro. Não gosto de sua felicidade proveniente desses experimentalismos que eles tem o privilégio de fazer com seus corpos. Deve ser inveja. Mas além disso é um não entender a economia lúdica que os alimenta de pequenas excentricidades e parece torná-los imunes à angústia da vida, ao pessimismo da tragédia da vida.

Não sei. Mas tem mais. “Para onde voam as feiticeiras” vai além. Ele parece propor uma tentativa de diálogo com os fascistas – sim, esse cidadão comum que passeia pela rua XV, é um fascista, mesmo que não saiba. O filme propõe uma perspectiva de ascese da vida social brasileira. Alianças entre os excluídos, mas também um debate que mostra de onde vem essa vontade de viver, essa continuidade da “luta” das artes, essa espécie de esperança em reatar a brasilidade mais fraterna.

No começo da exibição me lembrei de Dogville (EUA, 2003) e seus cenários áridos… sei que essa associação é aleatória, mas penso num paralelo entre o cenário do filme de Lars von Trier e o espaço de rua de “Para onde voam as feiticeiras”, é quase como se fosse um experimento “não-ficcional” no palco que é a cidade excludente.

A câmera de “Para onde voam as feiticeiras” transita entre o poético acadêmico, detalhes dos corpos no teatro, e o ridículo do povão na rua. Vemos isso num sequência de imagens, dos camarins experimentando roupas, até as lojas apinhadas do centro; de pés pintados, mamilos, poses e sonoplastia cult corta para um Neo estilizado (personagem de Matrix) de skate na rua ao som de brega.

Parecia-me algo como uma intervenção teatral na realidade: Dogville no centro de São Paulo. E de certa forma é isso, mas para além, até porque não está nem perto da depressão do diretor dinamarquês. É justamente essa disposição, essa afecção espiritual quase alegre, entusiasmada, o que me intriga durante o fluxo das histórias, dos depoimentos, dos debates e das “travessuras” é o combustível. Onde essa gente de corpos fora dos corpos encontra energia para seguir na utopia?

O segredo é afinal, revelado por Ave Terrena: “E se esse transtorno não vira criatividade ele vira autodestruição“.

Um filme animador, e que de certa forma nos faz pensar na possibilidade de seguir tecendo a brasilidade moderna, índia e preta, brasilidade trans.

Sobre o Autor

Não sou cineasta, mas gosto de criticar o trabalho dos outros rsrsrs

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