Acabei de ver esse filme sobre a mulher na cultura funk: Beat É Protesto – O Funk pela Ótica Feminina (Brasil, 2019, 23 min). Tá disponível gratuitamente na Mostra EcoFalante até 20/setembro.
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Achei um filme razoável pra bom, queria uma abordagem mais realista. Se eu pudesse dizer em termos matemáticos, eu queria 95% de realidade, de imagem não estilizada, chocante ou entediante, no sentido de vida real, e não performática, e +5% de show, talvez no final, como a cereja do bolo. Por que?
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Porque me parece que ficaria melhor, mais instrutivo, e dane-se também a matemática, isso é só um recurso. Em resumo não gosto da edição e de alguns momentos de câmera, dessa intercalação entre imagem estilizada, quase um videoclip do gênero e uma câmera insonsa em certas entrevistas. Deve ser puro preciosismo meu. 
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Frame genial do filme
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É que o “decoro” do baile a gente já conhece, e me satura – eu tô véio – eu queria algo menos glamour. Essa é a minha crítica, mas o filme tem um grande valor que é justamente focar nesse universo feminino, um foco que me pareceu insuficiente mas é um começo. Além disso tem o mérito de dar uns toques sobre o sentido geral da cultura do corpo, da violência policial e mesmo da economia criativa da favela.
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É um ponto de partida útil desse curta-metragem de 23 minutos, dirigido pela Mayara Efe, inclusive pra gente pensar que a mulher na cultura funk pode ser objetificada, aliás, o corpo da mulher lá não é periférico, é central, tudo gira em torno da putaria. Isso emancipa?
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Num certo sentido sim. Como sou freudiano, pra mim, corpos são erotizáveis independente da sua biologia (falar assim é muito abstrato, mas fazer o que? Preciso expressar esse pensamento). O que quero dizer é: no funk a mulher não é um segmento. A xoxota é como se fosse o objetivo central, e isso é expresso quase que sem gênero, porque pode ser também a piroca, ou sei lá o quê que pode ser resumido na vivência da sexualidade. O funk me parece meio tribal, um hedonismo tribal, uma “retro-alimentação” do erótico inclusive no humor e na transgressão. 
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Talvez o problema seja que o estilo musical, dado seu caráter de pulsão, inclui também uma dose de violência, uma reação, um extravasamento, que pode sim ser machista, numa espécie de ressentimento contra o objeto de desejo tão cultuado. Sim, estou novamente falando da buceta. Sem contar que o funk também aborda outros temas, às vezes explicitamente violentos, como na conexão com o hip-hop.
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Tendo em conta esses e outros elementos não sei dizer se podemos falar de uma ótica feminina no funk, porque assim parece que estamos falando de um elemento periférico e não, a mulher é central no funk. O funk em si é uma “economia do desejo” centrada na eroticidade feminina. Se, em alguns artistas isso é objeto mercadológico, acho que é um funk fraco. No funk forte, digamos assim, a putaria é ubíqua … rssrsr eu rio de mim mesmo escrevendo isso. Mas é verdade e isso sim é facilmente entendido pelas novas gerações ou pelo menos deveria ser.
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https://ecofalante.org.br/filme/beat-e-protesto-o-funk-pela-otica-feminina
Sobre o Autor

Não sou cineasta, mas gosto de criticar o trabalho dos outros rsrsrs

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