Cadê Edson? tem uma sinopse que pode, talvez, restringir o interesse: um documentário sobre a luta por moradia em Brasília. Em tempos de um Brasil polarizado alguém poderia imaginar que se trata de um filme exclusivamente para a esquerda. Mas será que ele é um panfleto? Vou arriscar uma resposta ao longo desse texto.

Escrevo uma crítica impressionista, como diriam alguns. A expressão me parece equivocada, e me desagrada, porque entendo-a muito próxima do movimento artístico do final do século XIX, com o qual não tenho, a princípio, nada a ver. Deixemos de lado essa pendenga e pensem que aqui farei uma crítica apenas expressando meus pensamentos e sentimentos, minhas impressões sobre o filme. Faço isso em praticamente todos os meus textos. Não acho que em toda crítica devamos, como sugerem certos teóricos, responder à pergunta “O que é o cinema?” ou coisa que o valha. Quero apenas expressar as minhas impressões livremente sobre esse filme em particular e suas relações com parte do mundo que conheço. Eventualmente essas impressões podem ser perigosas e equivocadas, ou ingênuas e também equivocadas. Segue o baile.

Cadê Edson? tem dois pontos “fortes”, filmograficamente falando: as cenas de abertura e a sequência da desocupação. São, na verdade, a mesma cena. A montagem é de impacto e isso é um mérito a ser mencionado para a produção do documentário lançado em 2019 e dirigido pela professora Dácia Ibiapina. Me lembrou muito parte do clip do Criolo de 2018, o Boca de Lobo, embora possa dizer que as cenas de Ibiapina são ainda mais habilidosas, num flerte hollywoodiano associado a um realismo artístico.

O filme foi exibido no último festival de Cinema presencial do país, Tiradentes, em janeiro. Essa mostra de Tiradentes sempre me interessa muito, porque alguns dos melhores filmes que vi passaram pelo seu filtro; mas nunca pude ir, por razões financeiras mesmo. A elite do cinema reúne-se em janeiro na pequena cidade histórica de MG; é um privilégio hospedar-se por lá. Bem, essa é outra conversa. Hoje, 06 de setembro e até amanhã 07/09/20, o filme Cadê Edson? pode ser visto por qualquer brasileiro na Mostra de Cinema de Ouro Preto, online e gratuitamente.

Mas vamos ao ponto. Depois do impacto audiovisual de um helicóptero gritando no nosso ouvido, as duas primeiras coisas que pensei foram as seguintes: como é possível que em pleno século XXI tenhamos gente acampando em lona para ter moradia? Essa é a primeira. A segunda coisa foi pior, pois é um exercício provocativo: que diferença haveria entre aquelas pessoas e um grupo miliciano?

Se eu fosse um bolsonarista poderia olhar para aquelas pessoas com a mesma ojeriza com que um progressista vê um grupo miliciano. Claro, as diferenças logo surgem se olharmos os bens materiais ou coisa que o valha. Milicianos, uma vez estabelecidos ostentam carrões e armas e etc., o que não é o caso aqui. Há, no entanto, um sentido de grupo, bastante comum, embora com vetor diferente. Talvez a questão seja inócua e a comparação absurda, porque, para além da observação dos resultados, há uma postura moral distinta. Porém, me ocorreu que o miliciano também começa na pobreza, moral e material.

O herói do MTST, “protagonista” do filme, e depois do MRP, emula um revolucionário cristão primitivo ou pelo menos a caricatura romântica bastante difundida, por certa tradição de esquerda, desses primeiros cristãos como aguerridos lutadores ao mesmo tempo em que mantém um equilibrado senso de justiça não vingativa. A organização miliciana, a exemplo do traficante, já foi pobre e enricou. Nesse processo não abdica da violência e da vingança. O herói da esquerda, de outro lado, não abdica da sua moral de justiça redistributiva. São posições quase incomensuráveis, mas que insisto em equiparar aqui, para fins de reflexão mesmo. Até porque, os milicianos contratados para matar as lideranças dos movimentos populares em geral, e de Edson em particular, são oriundos do mesmo povo pobre.

A diferença talvez possa ser entendida como programa: o miliciano quer resolver sua vida hoje, quer o gás, ou a internet pro mês, micro-política pra ontem. O movimento social quer uma macro-política ampla de longo prazo, moradia, saneamento, tudo aquilo que pode ser lido num panfleto. Mas no filme a gente vê isso concretamente, e aqui entro na segunda pergunta que fiz lá em cima.

Como é possível, em pleno século XXI, existirem pessoas sem o mínimo necessário previsto na Constituição de 1988? E o filme ainda poderia fornecer munição para o coxinha de direita: como pode isso acontecer em pleno governo do PT? Ele não tinha acabado com a miséria?

São questões legítimas, e é muito curioso nos colocarmos isso. Evidentemente o governo de Brasília, que massacra os moradores de um prédio abandonado não era do PT, mas essas coisas podem ser confundidas, afinal Dilma acende a tocha das Olimpíadas enquanto o MTST queima pneus no eixo central de Brasília.

É curioso que os movimentos populares vão pra iniciativa em um momento de ascensão do capitalismo brasileiro, no seu auge econômico-social. Ou alguém duvida que os governos petistas foram os melhores anos de vida brasileira depois de Getúlio?

Daquele momento em diante nós afundamos mais e mais. Queríamos alguém melhor do que Dilma, ganhamos Bolsonaro. Queríamos mais justiça, ganhamos um judiciário miliciano que leva à julgamento uma liderança popular acusada de homicídio por supostamente tentar derrubar um helicóptero – sic.

Para além de tudo isso, Cadê Edson? me faz pensar em certa tradição do documentarismo que pretende mostrar pessoas, concretamente, na sua humanidade. Há um componente ideológico, sem dúvida, mas há também um curioso foco no indivíduo. Foco ambíguo, ou ambivalente, se quisermos, porque o filme parece diluir o coletivo no indivíduo e vice-versa. Há certo romantismo que retrata a beleza de cada pessoa com suas histórias, que vai do começo ao fim, com o auge na solidão do protagonista.

Ignore tudo o que está escrito acima – eu mesmo vou queimar isso depois escrever – e aproveite para ver Cadê Edson online gratuitamente. Se apresse porque a excelente Mostra de Cinema de Ouro Preto fica online apenas até amanhã dia 07 de setembro.

https://cineop.com.br/

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<3

Sobre o Autor

Não sou cineasta, mas gosto de criticar o trabalho dos outros rsrsrs

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