Por Henrique Komatsu

O ser humano nunca está sozinho. Robinson Crusoé nunca esteve verdadeiramente só na Ilha do Desespero.

Como disse o filósofo, nós carregamos conosco todas as forças produtivas da civilização e da cultura. Robinson Crusoé, ao buscar meios de sobreviver na ilha, ao utilizar mesmo a mais rudimentar ferramenta, estava acompanhado por uma infinidade de homens e mulheres que criaram a cultura que ele mantinha junto a si cada vez que cavava um sulco no pedaço de madeira, marcando o tempo, reproduzindo o signo cultural da passagem dos dias, dos meses e dos anos, o calendário.

A compreensão de que carregamos conosco essa força coletiva é o que nos permite escapar do desespero da solidão. Quando nos esquecemos de que somos isso, de que somos um corpo cultural, de que nossos ossos, células, genes, são construções sociais, quando negamos isso, ou quando isso nos é alienado, então nos desesperamos. Porque nos sentimos sós, embora não estejamos verdadeiramente sozinhos.

A mulher ou o homem astronauta, esses Crusoés contemporâneos, também não estão sós no vácuo do espaço. Cada botão, cada piscar de um pulso elétrico, cada artefato tecnológico que os rodeia indicam a eles que uma cultura e uma civilização os encapsula, como um útero.

Agora, existem animais que não vivem nessa realidade simbólica e cultural. Há animais que para não estarem sós precisam da efetiva companhia do outro, do toque, do som, do cheiro. Esses animais sim, estão fadados a experimentar o profundo desespero da verdadeira solidão.

Talvez por isso, por esse traço característico que nos distingue, nós sejamos incapazes de entender essa outra forma de ser… essa outra forma de ser que pode vivenciar a sensação de estar verdadeiramente só e de sofrer o real desespero de uma solidão que não somos capazes de imaginar em todo o seu horror.

Essa ignorância é uma distância entre a besta homem e o animal… quiçá seja o abismo entre ambos.

Talvez por isso, por nossa ignorância em relação à solidão alheia, fomos capazes de colocar animais em cápsulas e lançá-los ao espaço.

O filme “Space Dogs” aborda essa solidão que desconhecemos.

Sem firmar nenhuma posição, sem defender nenhuma bandeira, os diretores nos mostram como os cães de rua de Moscou – de onde saíram as cobaias espaciais – vivem sua sociabilidade de uma única maneira possível: estando juntos; descansando juntos, brigando ou brincando juntos, caçando e comendo juntos, fugindo juntos das ameaças, suportando juntos a existência numa realidade urbana que lhes é, até certo ponto, alienígena…

Vendo os animais na tela, temos a impressão de que para realizarem sua sociabilidade, basta que estejam juntos.

Aos poucos, em contraste, o filme relata o que ocorreu com os animais submetidos à solidão cósmica dos programas espaciais americanos e soviéticos.

Ficamos sabendo de um chimpanzé que, ao retornar com vida de um longo voo pela órbita terrestre, entrava em surto ao mero contato visual com a cápsula. Ficamos sabendo dos cães que morreram sós, à deriva no espaço.

O filme nos coloca diante das imagens dos pequenos recipientes metálicos em que os bichos foram acomodados. E então nos damos conta da absoluta solidão a que foram submetidos e percebemos que aqueles seres não carregam consigo as forças produtivas de sua sociedade e não poderiam enxergar em nenhum dos elementos de sua prisão espacial um outro que os ajudasse a suportar a solidão.

Nenhum objeto, nenhuma das traquitanas tecnológicas que cercavam aqueles animais poderiam lhes dar a sensação de que estavam acompanhados. Nada daquilo poderia substituir a presença de outra vida.

O filme deixa implícito que naqueles recipientes metálicos, os animais foram abandonados ao desespero da solidão.

Gradualmente, ao longo da película, percebemos que a solidão que o ser humano é capaz de impor aos outros decorre de sua própria alienação do que é estar verdadeiramente junto ao outro.

Então nos damos conta de que a conquista do espaço é reservada àquela espécie animal que não é capaz de experimentar a solidão na sua forma mais real, é reservada àquela espécie que, por nunca experimentar a sensação de estar verdadeiramente junta, nunca está verdadeiramente só.

O espaço é reservado a uma espécie que não consegue experimentar uma verdadeira união com a terra, com a natureza, com os rios, com o outro ser humano.

O filme traz a seguinte questão: as forças produtivas que carregamos conosco, e que nos permite suportar a solidão, que nos aliena da solidão a tal ponto que somos capazes de impor tal desespero mortal ao outro, para aonde elas nos estão levando?



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Sobre o Autor

Não sou cineasta, mas gosto de criticar o trabalho dos outros rsrsrs

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