O personagem é consagrado, é atrativo, geralmente, por si só. As estórias e a forma como são contadas evoluem e até, digamos, progridem. A nova série da Netflix, Drácula (04/01/2020) tem essa virtude, até certo ponto.

Dividida em três capítulos tem uma introdução assombrosa e realmente boa no primeiro, quando relata sobre o prisioneiro do Conde que consegue “escapar” para um convento e contar suas desventuras. Aliás, a abertura da série me fez pensar muito na de Hannibal (Netflix, 2015), uma abertura que sempre achei belíssima; talvez sejam próximas pelo fascínio com o sangue presente nas duas “logos”, um dos poucos, infelizmente, paralelos possíveis entre essas duas séries.

O primeiro capítulo evolui com uma cinematografia muito boa e alguns efeitos com certo impacto. No geral é uma boa diversão embora um pouquinho sonolento em certas passagens onde o roteiro parece ter pouco a oferecer e as imagens não pretendem ocupar esse espaço. É um dos aspectos tradicionais da série, ao lado da trilha sonora e da dramaturgia.

Abertura de Hannibal (Netflix, 2015)

No segundo capítulo a premissa evolui, o enredo também. A personagem da irmã Agatha é realmente muito fascinante e o desfecho desse episódio, assim como o começo do terceiro, são algumas das partes mais interessantes da série. Da metade do terceiro capítulo em diante decai numa pegada quase “pastelão” com o surgimento de um advogado (figura cômica) no meio de uma estação de pesquisa (a lá Michael Bay), que acaba por derrubar a intensidade da série. A premissa, interessante, de uma “viagem no tempo”, e seu choque cultural adjacente, é completamente atrapalhada: primeiro a captura do monstro ou a forma como acontece, depois a pseudo ironia com os direitos jurídicos de um vampiro. Nada disso convence aquele tipo de espectador que aprecia a verossimilhança mais básica, aquela que mesmo as ficções devem sustentar de vez em quando.

O plot de Agatha van Helsing e sua descendente consegue manter-se interessante, mas os desenvolvimentos do personagem Drácula no mundo moderno parecem incapazes de propor qualquer metáfora minimamente pertinente acerca dos nossos tempos. Até mesmo a personagem Lucy que supostamente deveria propor uma niilista-hedonista burguesa de nossa época não vai além disso, ser uma proposta, um mero rascunho desse hedonismo.

A história de Drácula parece estar sempre repleta de tensão sexual e de uma perspectiva curiosa: é ao mesmo tempo dionisíaca e macabramente estoica. O personagem vive desse vinho hiperbólico que é o sangue, ao mesmo tempo que parece lidar com essa cotidianidade de 500 anos de vício, encarados quase como um orgasmo nauseabundo.

Mas a conclusão da série é bastante simples (estou comprometido a não dar spoilers) e não vai muito além das insinuações acerca de uma crise de consciência seguida de uma heroica ascensão moral. Seria uma metáfora e ao mesmo tempo uma sugestão para a alta burguesia parasitária do mundo? Não estou muito certo disso.

Talvez fosse possível, na conclusão dos personagens, outro paralelo com Hannibal, o que também não acrescenta muito. Duas qualidades interessantes, porém, podem ser mencionadas: o caráter empoderado da personagem Irmã Agatha, que é realmente fascinante e, ao lado de toda a sexualidade latente da lenda, a questão da homossexualidade também é insinuada de forma bastante liberal. É claro que também pode-se pensar na metáfora de uma aristocracia parasita, mas, novamente essa é apenas uma interpretação subjetiva, e com menos elementos de sustentação.

Por fim, podemos dizer que para os fãs do personagem ou para os que são capazes de, com algum esforço, deixar-se levar por uma estória “para dormir pastichezada” na Londres “gótica” de 2020, esse Drácula da Netflix é um ótimo passatempo.

P.s.: caso você queira aprofundar informações sobre o personagem e sobre as influências de Bram Stoker na sua composição, o link abaixo oferece várias referências interessantíssimas de biógrafos e intérpretes.

Drácula ganha sangue novo, agora em série; o que se sabe sobre o vampiro

Sobre o Autor

Não sou cineasta, mas gosto de criticar o trabalho dos outros rsrsrs

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