DRAGGED ACROSS CONCRETE ou quando o “Supercine” encontra o “Mumblecore”

 

Assisti ao filme do diretor S. Craig Zahler DRAGGED ACROSS CONCRETE (EUA, 2018) com uma boa expectativa, em termos gerais, digamos assim. O filme corresponde em certa medida, mas a depender do que se busca. Trata-se de uma obra que é uma mistura de um filme de suspense/ação “tipo Supercine” (dos anos 80/90) com uma pitada do “gênero Mumblecore”.

 

No decorrer do filme minha atenção se manteve “fisgada” o que é um mérito da obra. Mas é curioso que o resultado geral desse filme me fez pensar na minha juventude atenta à filmes de ação e suspense típicos do Supercine, um quadro da TV aberta brasileira cujas exibições em sua maioria eram de qualidade duvidosa. Até uma grande tolice pode ser “persuasiva”, conforme o “estado” psicológico do espectador. 

 

 

O filme é um suspense que mostra dois detetives interpretados por Mel Gibson e Vince Vaughn cujos personagens parecem-me um pouco clichês no estereótipo de policiais durões. Além disso a sua evolução é muito rápida, apesar da longa duração do filme, derivando numa “conversão criminosa”; nisso, por exemplo, vejo um pouco de mumblecore, principalmente na forma como os diálogos acontecem, literalmente resmungados, naturalistas e apenas parcialmente preocupados em esclarecer os caminhos do enredo. 

 

A rapidez com que os dois convertem-se numa empreitada criminosa é contrastada com um tempo lento de vazios argumentativos para essa conversão. O artifício produz verossimilhança, quase no sentido de um retrato de como certas coisas acontecem sem que muitos elementos visíveis nos mostrem essa evolução. Policiais e bandidos estão num limiar muito incerto de diferenciação, isso é interessante no filme, mas contrasta com tensões maniqueístas confusas em que ele mesmo se mantém. O policial violento tem uma família agredida pelos negros. Seria uma forma de justificar a violência?

 

Há também certa discrição no argumento pelo qual os dois policiais são suspensos; em tempos de hiper-visibilidade cada celular é uma câmera na mão, mas a punição por eles recebida é muito civilizada – embora justíssima é sentida como abusiva – comparada com a barbárie dos bandidos. 

 

 

O argumento da denúncia de violência policial contra os personagens é tão discreto que me fez pensar naquela polícia da Los Angeles do filme Um Tira da Pesada (EUA, 1984), comédia dos anos 80 estrelada por Eddie Murphy. Não que Dragged Across Concrete tenha qualquer traço de comédia, mas a maneira como a denúncia de abuso policial é tratada parece com aquela caricatura dos policiais corretos de Los Angeles no sucesso oitentista, por oposição ao malandro negro novaiorquino. Os policiais são, também aqui no século XXI, anti-heróis com causas nobres. E digo isso com toda a ironia que essas mal traçadas linhas me possibilitam. Aliás, mesmo o paralelo com Máquina Mortífera (EUA, 1987), onde Mel Gibson, faz praticamente esse mesmo papel mais jovem, não ficaria de todo mal.

 

 

Em Dragged Across Concrete  os vilões são retratados com uma crueldade pragmática que, em determinado momento, me parece forçar os tons. Ora são extremante frios, ora extrapolam o necessário que parecia caracterizar seus cálculos e derivam para ações que bem poderiam estar num sanguinolento filme de Tarantino. Falo com todo respeito ao diretor que admiro. 

 

É possível tomar um partido moral ao final desse filme e é nisso que ele se aproxima daqueles filmes simplistas do Supercine que também tentam criar e explorar narrativamente confusões a partir dos escombros do “muro de Berlim” entre o bem e o mal. Essa decisão depende do espectador, e este pode estar embalado por um drama que engana ao querer complexificar recortes simples dos personagens. Explico: pega um personagem negro, criminoso, converte-o no herói; toma um personagem branco cruel, converte-o no anti-herói, mas com chances de redenção bondosa; jogue umas pitadas de fotografia noir (muito bonita, por sinal), vilões cruéis de verdade, um clima de suspense imprevisível e está pronta a receita para o “você decide”. São as brincadeiras desse filme.

 

Tudo isso para dizer que o filme é bom, inclusive como passatempo, dentro desse contexto.

 

Por fim registro que queria ter escrito sobre esse filme apenas o título e mais nada, talvez fosse melhor. Mas achei que ficaria um pouco vago. Continua vago, porém tem um pequeníssimo valor como provocação acerca de um dos melhores filmes de suspense policial dos últimos anos, ainda que esse gênero seja tão capenga. Qual foi o último filme policial bom que você viu? Dia de Treinamento (EUA, 2002) é o meu, e foi na década passada.

 

 

P.s.: um leitor me fez lembrar de Infiltrados (EUA, 2006), muito bom e também da década passada 🙂 !

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